Projeto Gama Down – ASD/RN

Oftalmologia na síndrome de Down

Meire Gomes ¹

Os olhos da pessoa com síndrome de Down são seus cartões de visita: a fenda palpebral  oblíqua para cima contribui significativamente para o facies característico da síndrome. Cerca de 61% das pessoas com SD apresentam alterações oftalmológicas e necessitam de cuidados médicos específicos; o percentual de indivíduos afetados aumenta com a idade. Doenças oculares como catarata, megalocórnea, nistagmo , astigmatismo e miopia são mais freqüentes em pessoas com SD que na população geral e os erros de refração ocorrem em cerca de 50% dos indivíduos. Para Cunha et al.(7), a miopia e o estrabismo foram mais freqüentes em indivíduos com cardiopatia congênita associada.

Achados não patológicos  incluem as manchas de Brushfield e as pregas epicantais, encontradas em cerca de 61% dos indivíduos. As manchas de Brushfield são máculas de cor branca ou branco-acizentadas, dispostas na periferia da íris como grãos de sal. São caracteristicamente encontradas em crianças com SD no período neonatal e geralmente desaparecem no final do primeiro ano de vida.

A blefaroconjuntivite é encontrada em 33% dos pacientes, associada ou não à dermatite seborréica, além da ocorrência de epífora reportada em 30% das pessoas com SD, associada à obstrução naso-lacrimal. O Estrabismo ocorre em cerca de 38% e o Nistagmo ocorre em 18% dos indivíduos com síndrome de Down.

A ocorrência de megalocórnea, independente da presença de glaucoma, pode estar associada à síndrome de Down, acompanhada ou não de catarata. As crianças acometidas devem ser acompanhadas com seguimento da pressão intra-ocular, correção de vícios de refração e tratamento cirúrgico, quando indicados.

A catarata pode estar presente já ao nascimento em 3% dos nascidos vivos ou surgir no primeiro ano de vida; de rotina indica-se avaliação oftalmólogica no período neonatal e seguimento regular com o oftalmologista durante toda a vida. Em adultos, o achado de ceratocone parece ser mais freqüente que na população geral e a catarata pode atingir precocemente até 60% das pessoas com SD.

Um cuidado especial que deve ser observado pelo Oftalmologista é a sensibilidade que pessoas com síndrome de Down apresentam à atropina e seus derivados, substâncias comumente utilizadas pelos especialistas na forma de colírios.  Os derivados Tropicamida e Ciclopentolato produzem absorção sistêmica menos intensa que os colírios de atropina na sua forma pura, mas ainda assim podem produzir confusão mental, hipertermia, taquicardia, agitação psicomotora, alucinações e dispnéia, mesmo em doses consideradas seguras para a população geral. Se o uso for indispensável, sugerimos que o colírio seja diluído em solução salina. O alerta de risco já consta nas bulas dos referidos medicamentos.

Autora:

¹ ² Médica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, residência em pediatria pela UFRN, título de especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria; ex-médica da rede estadual de assistência à pessoa com deficiência do Rio Grande do Norte – Centro de Reabilitação Infantil; Curso de Formação em Perícia Médica, especialista em Direito Previdenciário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) Carey JC: Health supervision and anticipatory guidance for children with genetic disorders (including specific recommendations for trisomy 21, trisomy

18, and neurofibromatosis I). Pediatr Clin North Am 1992 Feb; 39(1): 25-53

(2) Chen H, Woolley PV Jr: A developmental assessment chart for non-institutionalized Down syndrome children. Growth 1978 Jun; 42(2): 157-65

(3) Cohen WI, ed: Health care guidelines for individuals with Down syndrome (Down syndrome preventative medical check list). Available at:

http://www.denison.edu/collaborations/dsq/ . Down Syndrome Q 1996; 1(2): 1-10

(4) Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar da UNIFESP – Oftalmologia – Ed. Manole, 2004, págs 73 e 270

(5) Health Supervision for Children With Down Syndrome

Pediatrics. Volume 107, Number 2. February 2001, pp 442-449

(6) Dicionário Digital de Termos Médicos, 2006, encontrado em http://www.pdamed.com.br/diciomed/pdamed_0001_3465.php

(7) Am J Ophthalmol. 1996 Aug;122(2):236-44. Ocular findings in Down’s syndrome.da Cunha RP, Moreira JB.

(8) Br J Ophthalmol. 2001 Jun;85(6):714-9. Refractive development in children with Down’s syndrome: a population based, longitudinal study.Haugen OH, Hovding G, Lundstrom I

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