Projeto Gama Down – ASD/RN

Educação sexual na síndrome de Down

Autoras:

Gisele Santos de Oliveira ¹

Meire Gomes ²

A educação sexual ainda é um tabu na nossa sociedade, e algo difícil de ser realizado, principalmente por visar uma fase delicadíssima da vida que é a adolescência. A educação sexual é complexa, pois não se restringe à percepção do amadurecimento físico para a relação sexual atingido com a puberdade, mas sim, envolve questões psico-afetivas, a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, a prevenção da gravidez precoce e do abuso sexual. Saber que o corpo está preparado fisicamente para relação sexual é um fato, mas como podemos saber se nosso filho está psico-afetivamente preparado? Até onde podemos interferir?

A orientação sexual vai depender do desenvolvimento intelectual do adolescente e do que a família percebe em relação ao seu interesse sexual. Deve ser feita sem pressa e por partes, evitando um volume grande de informação. Com a TV, revistas, filmes e músicas veiculadas atualmente, a curiosidade das crianças tem sido despertada cada vez mais cedo. Para todos os pais, seus filhos são sempre crianças e muitos evitam até em imaginar seus filhos mantendo relações sexuais, o que é perfeitamente normal. Quando se trata de crianças com SD, a duplicação desse sentimento é compreensível o que faz com que a educação sexual trabalhada em casa seja mais árdua e mais importante do que para as outras crianças.

O primeiro passo para a educação sexual é reconhecer e aceitar que o adolescente está fisicamente preparado para uma relação sexual. Para assumir a necessidade de educar o adolescente, aceitar isso é fundamental. O segundo, é a abertura do diálogo. A criança precisa saber que pode fazer perguntas e que vai ser atendida de maneira clara.

Vamos nos deter aqui especificamente à pessoa com síndrome de Down. Ainda não existe uma “fórmula” ideal para a educação sexual do adolescente com SD. Sem rodeios, trata-se de um terreno arenoso e cheio de controvérsias, e mesmo eu, médica e educadora, posso sentir a angústia dos pais quanto às sofridas dúvidas: Meu filho terá independência o suficiente para manter um relacionamento estável? Eu tenho o direito de privá-lo de um relacionamento afetivo por isso?

Então, falando especificamente na pessoa com SD, o segundo passo, o da abertura do diálogo, deve ser dado no momento que o(a) adolescente formular questionamentos, revelar sinais de interesse sexual ou se ele(a) estiver sofrendo algum tipo de assédio. Parece ser consenso que os pais não devam se adiantar a esses sinais, e sim orientá-los conforme suas demandas, pois a repressão da libido parece produzir comportamentos sexuais inadequados, como masturbação excessiva  e agressividade.

Junto com a abertura do diálogo, precisamos:

1. Da construção da identidade sexual homem X mulher e o reforço da necessidade de algum tipo defesa ou repulsa perante pessoas estranhas com atitudes suspeitas. Isso visa evitar os temíveis abusos sexuais – homo ou heterossexuais – direcionados às pessoas com SD.
2. De um ambiente com menos estímulos sexuais – isso vai depender, a princípio, da postura da família frente ao ambiente;
3. Rever as atividades recreativas e como o adolescente está usando seu tempo livre: está muito tempo na TV?

Adolescentes com SD que vivem num ambiente sem tantos estímulos parecem tender a construir relações de amizade e a não se interessarem tanto por relacionamentos sexuais propriamente ditos. O comportamento sexual habitual do indivíduo com trissomia 21 é o de passividade. O interesse pelo sexo oposto é pueril na grande maioria dos adolescentes, o que justifica a educação sexual global direcionada a grupos em particular, quando há realmente uma justificativa – tais quais as citadas anteriormente.

Estudos sugerem que os meninos adolescentes são inférteis, havendo uma série de fatores associados, como oligoespermia ou azoospermia (redução ou ausência de espermatozóides), muitos relatos de hipogenitalismo (genitália menor) e hipogonadismo. Já as adolescentes, habitualmente, possuem maturação e funcionamento sexual sem grandes alterações, havendo relato de freqüência aumentada de ciclos anovulatórios. Teoricamente, uma mulher portadora de Síndrome de Down tem 50% de chance de gerar um bebê com SD. Considerando que muitos fetos com trissomias e outras alterações genéticas sofrem abortamento, estima-se que mais de 50% dos nascidos vivos não sejam bebês com  síndrome de Down.

A base da educação sexual do adolescente com SD, portanto, é a formação da identidade homem X mulher, a imposição dos limites como o trabalho em cima da eventual masturbação excessiva e a prevenção do abuso sexual. A prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e os métodos contraceptivos são um segundo plano, destinado àqueles que desenvolvem vida sexual ativa.

As orientações expostas não fazem parte de consensos sobre o tema; as decisões pontuais  devem ser sempre da família e da parte mais interessada, que é a pessoa com síndrome de Down.

AUTORAS

¹ Médica pela UFPR, residência em pediatria pela HC/UFPR, residência em genética médica pela FCM/Unicamp, título de especialista Genética Clínica pela AMB/SBGC, mestrado Ciências Médicas – concentração em Genética Médica pela FCM/Unicamp, doutoranda – Ciências Médicas – concentração em Genética Médica pela FCM/Unicamp.

² Médica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, residência em pediatria pela UFRN, título de especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria; ex-médica da rede estadual de assistência à pessoa com deficiência do Rio Grande do Norte – Centro de Reabilitação Infantil; Curso de Formação em Perícia Médica, especialista em Direito Previdenciário.

LEITURA RECOMENDADA

American Academy of Pediatrics: Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health and Committee on Adolescence. Sexuality education for children and adolescents. Pediatrics 2001 Aug;108(2):498-502

Obs:

Versão inicial do texto, de autoria de Meire Gomes, foi publicado na Rede Saci (USP) e posteriormente revisado em conjunto com Gisele Santos de Oliveira, especialmente para o Projeto Gama Down.

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